Traduzir o currículo para o inglês palavra por palavra produz um documento gramaticalmente correto e culturalmente errado. Um currículo em inglês para uma empresa americana, uma vaga remota no exterior ou uma multinacional não é o mesmo documento em outro idioma: mudam as convenções sobre o que incluir, como nomear a formação acadêmica e até o tamanho esperado.
Esta guia percorre o que muda de verdade ao passar um currículo brasileiro para o inglês: o que sai, o que não se traduz ao pé da letra, quais verbos usar e o que revisar quando a primeira versão foi feita por uma máquina.
Neste guia
Resume e CV não são a mesma coisa
Nos Estados Unidos e no Canadá, o documento enviado numa candidatura se chama resume: uma página (duas no máximo), orientado a resultados, adaptado a cada vaga. A palavra "CV" (curriculum vitae) designa outra coisa: um documento acadêmico extenso, com publicações e congressos, usado apenas em pesquisa, medicina e docência universitária.
No Reino Unido e na Irlanda, "CV" é o nome do documento padrão de candidatura, com as mesmas regras de brevidade. A consequência prática: ao se candidatar a uma empresa americana, convém nomear o arquivo e falar em "resume"; diante de uma vaga britânica, em "CV". Em ambos os casos, o conteúdo segue a lógica de uma página com resultados mensuráveis que a guia geral para fazer um currículo descreve.
O que sai do currículo ao passar para o inglês
Os mercados de língua inglesa têm leis antidiscriminação rígidas, e os recrutadores preferem não receber dados que possam gerar viés. O currículo brasileiro costuma carregar um bloco de "Dados pessoais" que, em inglês, desaparece por completo:
- A foto. Nos Estados Unidos, no Canadá e no Reino Unido, um currículo com foto pode ser descartado de imediato para evitar risco jurídico.
- A data de nascimento e a idade.
- O estado civil, a nacionalidade, o CPF e o RG. Nenhum número de documento vai no currículo em inglês.
- O endereço completo. Basta cidade e país, mais e-mail e LinkedIn.
- A seção "Objetivo". Comum no Brasil, em inglês soa datada. O lugar dela é ocupado por um Summary de duas ou três linhas com o cargo pretendido e os resultados principais.
- As referências. A linha "References available upon request" também sobra: está subentendida.
O resultado é um documento sóbrio, muito parecido com o formato Harvard, que nasceu justamente nesse mercado. Uma coluna, sem foto, resultados quantificados.
Equivalências que não se traduzem ao pé da letra
É aqui que se concentram os erros mais caros, porque uma equivalência ruim confunde o recrutador ou infla (ou esvazia) o perfil sem querer.
Títulos acadêmicos
Os sistemas de ensino não coincidem, então se traduz o conceito, não o nome. As equivalências mais usadas para a formação brasileira:
- Bacharelado: Bachelor's degree (bacharelado em Administração, Bachelor's degree in Business Administration).
- Licenciatura: Bachelor's degree in Education ou Teaching degree in [área]. Não traduzir como "license", que em inglês é uma licença profissional.
- Tecnólogo: Associate degree ou Technology degree in [área], com a duração entre parênteses (2-year degree), porque o formato não tem equivalente direto.
- Curso técnico: Technical diploma ou Vocational training in [área].
- Pós-graduação lato sensu (especialização, MBA brasileiro): Postgraduate certificate ou Specialization in [área]. Um MBA lato sensu de 360 horas não equivale ao MBA americano, que é um mestrado; traduzir como "MBA" sem contexto gera uma expectativa que a entrevista desmonta.
- Mestrado: Master's degree. Doutorado: PhD.
- Ensino médio: High school diploma, que só entra no currículo quando não há formação superior.
Quando não existe equivalente claro, funciona o nome local seguido de uma explicação: "Contador (CRC), equivalent to CPA / Bachelor's in Accounting".
Níveis de idioma
"Inglês fluente" e "inglês avançado", as duas fórmulas mais comuns nos currículos brasileiros, não significam nada verificável. O padrão é o quadro CEFR (A1 a C2), reconhecido internacionalmente: English: C1 (advanced). Se há um exame feito, cita-se com nota e ano: TOEFL iBT 105 (2024), IELTS 7.5 (2025). Os autodiagnósticos otimistas são detectados na primeira ligação.
Nomes de instituições e empresas
As instituições mantêm o nome oficial (Universidade de São Paulo continua sendo USP; "University of São Paulo" só entra entre parênteses como esclarecimento). Com as empresas brasileiras pouco conhecidas fora do país, ajuda uma linha de contexto: "Largest pharmacy chain in Brazil, 2,500 stores".
Verbos de ação em inglês
As descrições de experiência em inglês começam com verbo de ação no passado, sem sujeito. Os mais úteis por tipo de resultado:
- Resultados e crescimento: increased, grew, improved, reduced, achieved, exceeded ("Increased monthly sales 20% by redesigning the follow-up process").
- Gestão e liderança: led, managed, coordinated, supervised, mentored ("Led a team of 8 customer service representatives").
- Criação e implementação: developed, launched, implemented, designed, built, automated.
- Análise: analyzed, identified, evaluated, forecasted, streamlined.
Dois vícios a evitar: "responsible for" (descreve a tarefa, não o resultado; é o equivalente exato de "responsável por") e "helped with" (dilui o mérito próprio até torná-lo invisível).
Erros de tradução literal
Os falsos cognatos e os calques do português produzem frases que um falante nativo percebe na hora:
| Assim não | Assim sim |
|---|---|
| Actually, I work at... | Currently working at... (actually significa "na verdade", não "atualmente") |
| I am formed in Administration. | Bachelor's degree in Business Administration. ("formado em" não se traduz com formed) |
| I worked as a collaborator at... | Worked at... (collaborator não significa funcionário; em inglês soa como coautor ou, pior, cúmplice) |
| Responsible for the team. | Led a team of 6. (o verbo de ação vale mais que a expressão) |
| Domain of Excel. | Advanced Excel skills. ("domínio" não se calca; domain é outro conceito) |
| Salary pretension: USD 4,000. | Nada. (a pretensão salarial não vai no currículo em inglês; se for pedida, entra no formulário) |
| Formation: ... | Education: ... ("formação" como título de seção é education, nunca formation) |
O teste mais barato antes de enviar: procurar no LinkedIn três pessoas com o cargo pretendido no país pretendido e comparar o vocabulário. Se o currículo usa termos que nenhum desses perfis usa, provavelmente são calques.
Tradução automática: quando serve e o que revisar à mão
Os tradutores automáticos atuais resolvem bem a gramática superficial e, como primeira passada, economizam tempo de verdade. O que eles não resolvem é tudo o que está acima: não tiram a foto nem o CPF, não convertem o tecnólogo em Associate degree com critério, não passam "inglês fluente" para o quadro CEFR, não eliminam a seção "Objetivo" nem reescrevem "responsável por" como verbo de resultado. Uma ferramenta de tradução especializada em currículos aplica essas convenções além do idioma, que é exatamente a diferença entre traduzir um texto e traduzir um currículo.
Seja qual for o caminho, a revisão manual final cobre cinco pontos: títulos acadêmicos com equivalência correta, níveis de idioma em CEFR, descrições que começam com verbo de ação, zero dados pessoais sensíveis e coerência de tempos verbais (passado para cargos anteriores, presente ou gerúndio para o atual). E, como o documento final compete igual a qualquer outro, vale a regra de sempre: adaptá-lo à vaga concreta antes de enviar.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre resume e CV em inglês?
Nos Estados Unidos e no Canadá, resume é o documento de candidatura (uma página, resultados, adaptado à vaga) e CV é um documento acadêmico extenso para pesquisa e docência. No Reino Unido, CV é o nome do documento padrão de candidatura. Convém usar o termo do mercado ao qual se candidata.
O currículo em inglês leva foto?
Não. Nos mercados de língua inglesa a foto sai, junto com a idade, o estado civil, o CPF e o RG, por causa das normas antidiscriminação. Um currículo com foto pode ser descartado de imediato nos Estados Unidos ou no Reino Unido.
Como colocar o nível de inglês no currículo?
Com o quadro CEFR, que é o padrão verificável: A1-A2 (básico), B1-B2 (intermediário), C1-C2 (avançado). Se há um exame feito (TOEFL, IELTS, Cambridge), cita-se com nota e ano. "Inglês fluente" sozinho não traz informação verificável.
Como traduzir "bacharelado" e "tecnólogo" num currículo em inglês?
Bacharelado é Bachelor's degree seguido da área: Bachelor's degree in Business Administration. Tecnólogo é Associate degree ou Technology degree, com a duração entre parênteses. Mestrado é Master's degree e doutorado, PhD. Uma pós lato sensu vira Postgraduate certificate; não convém chamá-la de MBA sem contexto.
Vale traduzir o currículo com um tradutor automático?
Como primeira passada, sim; como versão final, não. A tradução automática resolve a gramática, mas não as convenções: tirar a foto e os dados pessoais, converter títulos acadêmicos, passar idiomas para o CEFR, eliminar a seção "Objetivo" e reescrever tarefas como resultados com verbos de ação. Isso exige revisão manual ou uma ferramenta especializada em currículos.