Quem recruta para tecnologia no Brasil lê o currículo de um jeito particular: procura a stack antes do nome da empresa, o resultado antes da lista de responsabilidades e o link do GitHub antes da seção de formação. Um currículo de desenvolvedor, de analista de dados ou de DevOps que não entrega essas três coisas nos primeiros segundos costuma ser descartado sem chegar ao fim da primeira página.
Este guia reúne o que os currículos da área têm em comum, os erros que se repetem em qualquer cargo técnico e o critério para escolher um modelo. A grade de cargos ao final leva à página de cada função, com palavras-chave, tópicos de experiência e um exemplo completo.
Neste guia
O que os currículos de tecnologia têm em comum
Em qualquer cargo técnico, a seção de experiência é lida com a mesma pergunta: com qual stack, em qual escala e com qual resultado. Cada cargo precisa dizer as tecnologias usadas naquele trabalho (não a lista geral), o tamanho do que se operou (usuários, requisições, dados, serviços, casos de teste) e o que mudou com o trabalho da pessoa. Tarefas sem número ("desenvolvimento de funcionalidades", "execução de testes", "criação de dashboards") são o padrão dos currículos descartados.
A seção de habilidades pesa mais do que em outras áreas porque é o que os sistemas de triagem comparam com a vaga. Convém agrupar por categoria (linguagens, frameworks, bancos, nuvem, ferramentas) e usar o nome exato que aparece nos anúncios. Alguns termos atravessam quase todos os cargos da área:
- Git, com GitHub ou GitLab
- Metodologias ágeis (Scrum, Kanban) e Jira
- SQL
- Docker e noções de CI/CD
- Nuvem (AWS, Azure ou GCP)
- APIs REST
- Testes automatizados
- Inglês técnico, no mínimo de leitura
O que se espera além do documento varia por cargo: GitHub ou portfólio com produto no ar para desenvolvimento, apps publicados para mobile, painéis ou notebooks públicos para dados, certificações de nuvem para DevOps e infraestrutura, ISTQB para testes. Não há conselho profissional obrigatório, ao contrário de engenharia ou saúde, então o código público e as certificações fazem o papel do registro.
Erros comuns na área
Os currículos de tecnologia costumam ser descartados por um conjunto pequeno de erros, os mesmos em todos os cargos:
- Sopa de siglas. Vinte e cinco tecnologias na lista, incluindo as vistas uma vez em curso. Dilui as que importam e gera perguntas difíceis na entrevista técnica.
- Barras e estrelas de nível. O ATS não lê, e o recrutador não confia em "80% em Python".
- Tarefas em vez de resultados. Sem latência, conversão, disponibilidade, defeitos ou custo, a experiência não se diferencia de uma descrição de vaga.
- Três páginas. Todos os projetos desde a faculdade, com o mesmo peso. Uma página até uns oito anos de experiência; duas apenas com trajetória longa.
- Links quebrados ou vazios. GitHub com último commit de anos atrás, portfólio fora do ar, app retirado da loja.
- Título genérico. "Profissional de TI" ou "Analista de sistemas" no lugar do cargo da vaga, que é o que o filtro procura.
- Inglês "fluente" sem respaldo. Nível real, com contexto ("leitura técnica fluente, conversação intermediária"), evita a surpresa na entrevista.
Os sistemas de triagem usados por plataformas como Gupy, Greenhouse e Workday comparam o texto do currículo com o da vaga. A ferramenta para adaptar o currículo à vaga faz essa comparação antes do envio e mostra quais termos do anúncio ainda faltam. A estrutura geral do documento segue a do guia de como fazer um currículo.
Como escolher o modelo
Em tecnologia, o modelo certo é o que o ATS lê sem erro e o recrutador técnico percorre em segundos: uma coluna, seções bem separadas, lista de habilidades em texto, links em texto. A tentação de "mostrar design" com colunas, ícones e gráficos costuma produzir um documento lido fora de ordem pela triagem automática, e não impressiona quem contrata engenharia.
Entre os modelos de currículo, as versões de uma coluna, moderna ou clássica, servem para todos os cargos da área. Um modelo com toque visual mais forte só faz sentido para designer UX/UI, e mesmo assim acompanhado de portfólio e de uma versão sóbria para os filtros. A comparação entre os dois estilos está no guia de currículo moderno.
Os cargos da área
Os cargos de desenvolvimento (backend, frontend, fullstack, mobile e júnior) compartilham a lógica de stack, escala e resultado, e diferem no que se mede: latência e disponibilidade no backend, performance e conversão no frontend, entregas de ponta a ponta no fullstack, métricas de loja no mobile. Infraestrutura e operação (DevOps, administrador de sistemas, suporte técnico, help desk e cibersegurança) medem disponibilidade, tempo de resolução, custo e incidentes, e é onde as certificações mais pesam.
Qualidade (QA/testes e automação) mede defeitos evitados, cobertura e tempo de regressão. Dados (analista, cientista e engenheiro de dados) mede decisões apoiadas, métricas de modelo e de negócio, volume e confiabilidade dos pipelines. Produto e gestão técnica (product manager, designer UX/UI, analista funcional, scrum master e arquiteto de software) medem resultados de produto e de equipe. Cada página de cargo abaixo traz as palavras-chave, os tópicos de experiência e um exemplo completo.
Perguntas frequentes
O currículo de tecnologia precisa ter link para o GitHub?
Para cargos de desenvolvimento e dados, ajuda quando o perfil tem código recente e legível; um perfil vazio ou abandonado é pior do que nenhum. Para infraestrutura, suporte e gestão, o link é opcional e as certificações pesam mais.
Quantas tecnologias listar na seção de habilidades?
Entre 10 e 15, agrupadas por categoria e restritas ao que se sustenta em entrevista técnica. As usadas em produção vêm primeiro; as de estudo, se entrarem, ficam em linha separada e identificada como tal.
O currículo de tecnologia deve ser em português ou em inglês?
Em português para vagas no Brasil, salvo quando o anúncio está em inglês ou pede o documento nesse idioma, o que é comum em multinacionais e em vagas remotas para o exterior. Nesse caso, convém uma versão em cada idioma, seguindo o guia de currículo em inglês.
Quantas páginas deve ter um currículo de tecnologia?
Uma página até cerca de oito anos de experiência. Duas páginas se justificam com trajetória longa ou muitos projetos relevantes, sempre com os cargos recentes ocupando a maior parte do espaço.