O documento que se envia para uma vaga nos Estados Unidos não é o currículo brasileiro em inglês. Chama-se resume, tem uma página, não leva foto nem dados pessoais, não tem seção Objetivo, e cada linha de experiência é um resultado com número. Um currículo bem traduzido mas montado com as convenções do Brasil é identificado nos primeiros segundos, e em muitas empresas é descartado antes que alguém o leia inteiro.
Este guia reúne o que muda para quem procura trabalho nos Estados Unidos a partir do Brasil ou já está no país: nome e extensão do documento, o que sai, como se descreve a experiência, como entram formação e idiomas, como resolver a autorização de trabalho em uma linha, quais sites de vagas usar e quais erros entregam quem vem de outro mercado. A parte de idioma (equivalências, verbos, calques) está no guia de currículo em inglês; aqui o foco é o mercado.
Neste guia
Resume, não currículo: nome, extensão e papel
Nos Estados Unidos, o documento de candidatura é o resume. A palavra "CV" designa o currículo acadêmico longo usado em universidades, pesquisa e medicina, e "curriculum" no e-mail ou no nome do arquivo marca alguém que não conhece o mercado. O arquivo deve se chamar Firstname-Lastname-Resume.pdf.
A extensão esperada é uma página, e duas apenas com mais de dez anos de experiência relevante ou em cargos de direção. O papel é Letter (8,5 por 11 polegadas), não A4: um PDF montado em A4 imprime com as margens cortadas e denuncia a origem. A ordem é cronológica inversa, experiência primeiro; a formação sobe ao topo só para recém-formados. Os modelos de currículo de uma coluna resolvem o formato sem trabalho manual.
O que sai: foto, Objetivo e dados pessoais
As leis antidiscriminação americanas levam os empregadores a evitar qualquer informação que possa enviesar uma decisão. Um resume com foto pode ser descartado por política interna, e o mesmo vale para data de nascimento, nacionalidade, estado civil e qualquer número de documento (nem CPF, nem RG, nem passaporte, nem SSN).
A seção Objetivo, quase obrigatória no Brasil, não existe no resume: o cargo pretendido vira um título logo abaixo do nome, e a pretensão salarial nunca entra no documento. O cabeçalho se reduz a nome, cidade e estado, telefone com código do país, e-mail profissional e LinkedIn. Endereço completo sobra: basta Orlando, FL ou, para quem ainda está no Brasil, a cidade atual e uma nota de mudança (Relocating to Boston, MA in March). Referências também ficam de fora, inclusive a frase "References available upon request".
Experiência: resultados com número, não atribuições
Cada cargo leva título, empresa, cidade, período com mês e ano, e de três a cinco linhas que começam com verbo de ação no passado (presente para o cargo atual), sem sujeito e com resultado mensurável. "Responsável por" e "atuação em" descrevem a função; o recrutador americano quer saber o que mudou porque aquela pessoa esteve ali.
- Increased regional sales 23% in 12 months by restructuring the distributor network (14 accounts).
- Cut invoice processing time from 5 days to 48 hours by automating approvals in SAP.
Empresas brasileiras pouco conhecidas fora do país levam uma linha de contexto abaixo do nome (Largest drugstore chain in Brazil, 12,000 employees). Valores são convertidos para dólar ou marcados com a moeda original (BRL 4.5M, approx. USD 800K), e os números seguem o formato americano: vírgula para milhar, ponto para decimal, o inverso do português.
Formação, conselhos profissionais e idiomas
A formação se traduz pelo conceito, não pelo nome: bacharelado é Bachelor's degree, mestrado é Master's degree, curso tecnólogo é Associate degree ou Technical degree conforme a duração, e a pós lato sensu (especialização ou MBA brasileiro) é Postgraduate certificate ou Specialization, nunca MBA sem aspas, porque o MBA americano é outro programa. A universidade mantém o nome original, com o país entre parênteses. Em profissões regulamentadas (saúde, direito, engenharia civil, contabilidade), o registro no CREA, na OAB ou no CRM não vale lá; cita-se a avaliação de credenciais, se existir (WES evaluation: equivalent to a U.S. Bachelor's in Civil Engineering), ou o exame de licença em andamento.
O nível de inglês não se declara como "fluente" ou "avançado": usa-se a escala CEFR ou um exame com nota e ano (English: C1; TOEFL iBT 108, 2025). O português entra como Portuguese: native, e o espanhol, quando existe, é um ativo real em vários estados. Uma ferramenta de tradução de currículo aplica essas conversões além do idioma e poupa a revisão mais cansativa.
Autorização de trabalho em uma linha
Os formulários de candidatura nos Estados Unidos perguntam quase sempre duas coisas: se a pessoa está autorizada a trabalhar no país e se precisará de patrocínio de visto (sponsorship) agora ou no futuro. O resume não detalha o tipo de visto nem o processo; basta uma linha clara no cabeçalho ou no final:
- Authorized to work in the U.S. for any employer.
- Work authorization: EAD valid through 2027.
- Requires visa sponsorship.
Omitir a situação não funciona: o formulário pergunta de novo e uma resposta inconsistente encerra o processo. Quem ainda não tem autorização faz melhor em concentrar a busca em empresas que patrocinam, tema que o guia de primeiro emprego no exterior desenvolve.
ATS e formato
Quase todas as empresas médias e grandes recebem candidaturas por um ATS (Workday, Greenhouse, Lever, iCIMS) que extrai o texto do PDF e o compara com a descrição da vaga. Um resume em duas colunas, com ícones ou texto dentro de imagem, chega mal lido; um de uma coluna, com títulos padrão (Experience, Education, Skills) e fonte comum, chega inteiro.
As palavras-chave saem do anúncio, com os nomes exatos e só quando são verdadeiras. Ajustar título, resumo e habilidades para cada vaga é prática normal nesse mercado, não exceção. Uma verificação ATS antes de enviar mostra o que o sistema lê e o que se perde.
Sites de vagas e costumes do processo
Os sites generalistas são o Indeed, o LinkedIn e o Glassdoor (que também publica avaliações de empregadores e faixas salariais por cargo). O Handshake conecta estudantes e recém-formados de universidades americanas a empregadores e exige conta institucional. Gupy, Catho e Vagas não existem lá. Muitas vagas são preenchidas por indicação: uma mensagem curta a alguém da empresa antes de se candidatar muda a posição do resume na pilha.
O processo típico tem uma ligação curta com o RH (phone screen), uma ou mais entrevistas com a equipe e, às vezes, um exercício prático. Dois costumes que surpreendem quem vem do Brasil: a pergunta sobre expectativa salarial vem cedo e se responde com uma faixa, e o e-mail de agradecimento nas 24 horas seguintes a cada entrevista é esperado, não opcional. Dinâmica de grupo é rara, e a carta de apresentação, quando pedida, tem meia página.
Erros de quem vem de outro mercado
| Assim não | Assim sim |
|---|---|
| Foto no canto superior direito. | Sem foto; o espaço vai para o cabeçalho. |
| Objetivo: atuar na área de logística. | Supply Chain Analyst como título abaixo do nome. |
| Data de nascimento, CPF, estado civil. | Cidade e estado, telefone, e-mail, LinkedIn. |
| Responsible for the sales department. | Led a 6-person sales team; grew revenue 18% year over year. |
| MBA em Gestão de Projetos (FGV). | Postgraduate Specialization in Project Management, FGV (Brazil). |
| Duas páginas A4 em três colunas. | Uma página Letter, uma coluna, títulos padrão. |
Antes de enviar, procurar no LinkedIn três pessoas com o cargo pretendido na cidade pretendida e comparar títulos, extensão e vocabulário. O que nenhum desses perfis usa provavelmente é um calque.
Exemplo de cabeçalho
Para um perfil de Curitiba que se muda para a Flórida:
Rafael Almeida
Orlando, FL (relocating March 2027) · +55 41 99999 0000 · rafael.almeida@email.com · linkedin.com/in/rafaelalmeida
Supply Chain Analyst · Authorized to work in the U.S. for any employer
Abaixo vem um resumo de três linhas com anos de experiência, setor e dois resultados com número, e depois a experiência. Nada mais no cabeçalho: sem foto, sem endereço, sem documento.
Perguntas frequentes
O currículo para os Estados Unidos leva foto?
Não. Os empregadores americanos evitam receber foto, idade, estado civil e nacionalidade por causa das normas antidiscriminação, e muitos descartam automaticamente os resumes que as incluem. O cabeçalho leva só nome, cidade e estado, telefone, e-mail e LinkedIn.
O resume tem seção Objetivo?
Não. O cargo pretendido vira um título logo abaixo do nome, e a pretensão salarial nunca entra no documento. Um resumo de três linhas com resultados pode seguir o título, mas o parágrafo de objetivo caiu em desuso nos Estados Unidos.
É preciso colocar o visto no currículo?
Não o tipo de visto nem o processo. Basta uma linha que diga se a pessoa está autorizada a trabalhar nos Estados Unidos ou se precisa de patrocínio, porque o formulário de candidatura vai perguntar de qualquer maneira.
Como escrever bacharelado e MBA no resume?
Bacharelado é Bachelor's degree seguido da área, com o nome original da universidade e o país entre parênteses. O MBA brasileiro é uma pós lato sensu e deve aparecer como Postgraduate Specialization, porque o MBA americano é um programa diferente e o recrutador vai comparar.
Quais sites de vagas se usam nos Estados Unidos?
Indeed, LinkedIn e Glassdoor cobrem a maior parte das vagas publicadas; o Handshake atende estudantes e formados de universidades americanas. Muitas contratações passam por indicação, então o contato prévio com alguém da empresa pesa tanto quanto o site.